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Resumo semanal: 31/03 a 04/04
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Ásia
Na Ásia, as tensões comerciais voltaram a escalar após o governo chinês anunciar tarifas de 34% como resposta às medidas protecionistas dos Estados Unidos, aprofundando o embate entre as duas maiores economias do mundo. Como reflexo da retaliação, os preços das principais commodities recuaram ainda mais, com destaque para o petróleo Brent — referência global para precificação — que caiu para abaixo dos 65 dólares por barril, atingindo o menor valor desde 2021. Paralelamente, o índice Nasdaq entrou tecnicamente em bear market, ao registrar uma queda acumulada de aproximadamente 20% em relação às máximas recentes. As tarifas chinesas entrarão em vigor no próximo dia 10 de abril, sinalizando um novo capítulo na disputa comercial que já afeta os mercados globais.
Apesar do ambiente externo conturbado, os dados de atividade econômica da China surpreenderam positivamente. O índice PMI Composto, que reflete a percepção dos empresários sobre as condições gerais da economia, subiu de 51,5 pontos em fevereiro para 51,8 pontos em março — o maior nível registrado nos últimos três meses. De forma semelhante, o PMI Caixin da Indústria, que reúne as avaliações de cerca de 400 empresas privadas do setor de serviços, avançou para 51,2 pontos, superando a expectativa de 50,6. Esse desempenho representa a maior expansão em quatro meses e sugere alguma resiliência da economia chinesa no curto prazo. Ainda assim, os desdobramentos da guerra comercial aumentam significativamente os riscos de desaceleração no país ao longo de 2025.
Europa
Na zona do euro, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) avançou 0,6% em março na comparação com fevereiro, em linha com as expectativas do mercado. Como resultado, a inflação anual da região recuou levemente, passando de 2,3% para 2,2%. Já o núcleo do CPI — indicador que desconsidera itens mais voláteis como alimentos e energia — caiu de 2,6% para 2,4% no acumulado de 12 meses, ficando abaixo da projeção de 2,5%. Esses dados reforçam a tendência de desaceleração da inflação, ainda que em ritmo gradual, e alimentam expectativas quanto à possibilidade de cortes nos juros por parte do Banco Central Europeu nos próximos meses.
Ao mesmo tempo, a economia europeia segue enfrentando desafios significativos, especialmente diante do agravamento das tensões comerciais com os Estados Unidos. As tarifas impostas por Washington podem atingir até 90% sobre determinados produtos, o que já leva analistas a projetarem revisões para baixo no crescimento do PIB europeu. Um acréscimo de 20% nas tarifas direcionadas à União Europeia levou os líderes do bloco a se reunirem com representantes dos setores mais impactados, com o objetivo de formular uma resposta conjunta ainda em abril. A Alemanha é o país mais vulnerável neste contexto, dado que cerca de 5% de seu PIB depende diretamente das exportações para os EUA. Em tom firme, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou: “se você enfrenta um de nós, você enfrenta todos nós”.
Oriente Médio
No Oriente Médio, a Opep+ decidiu avançar com o plano de reversão gradual dos cortes de produção de petróleo, acordando um aumento de 411 mil barris por dia (bpd) a partir de maio. O grupo, formado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados como a Rússia, havia inicialmente programado um incremento de 135 mil bpd para o mesmo mês. A mudança veio após uma reunião virtual, na qual os membros destacaram fundamentos de mercado sólidos e uma perspectiva positiva para justificar a ampliação. O aumento inclui o volume já previsto, além de dois incrementos mensais adicionais, que poderão ser pausados ou revertidos conforme as condições de mercado. Essa decisão faz parte de um plano mais amplo firmado por países como Arábia Saudita, Rússia e Emirados Árabes Unidos para reverter o corte mais recente de 2,2 milhões de bpd. Ainda há outros 3,65 milhões de bpd em cortes vigentes até o fim de 2025. Analistas apontam que o movimento também visa reforçar a disciplina entre os membros, especialmente após a produção recorde do Cazaquistão gerar insatisfação dentro do grupo.
Na Turquia, o destaque da semana foi a divulgação dos dados de inflação de março, que apontaram uma alta anual de 38,1%, abaixo dos 38,9% esperados pelo mercado e dos 39,1% registrados em fevereiro. A variação mensal foi de 2,5%, também inferior à expectativa de 3,0%, indicando que a recente desvalorização da lira ainda não gerou forte impacto inflacionário. Apesar do aumento expressivo nos preços dos alimentos (4,9% no mês), outras categorias mais sensíveis à taxa de câmbio mostraram estabilidade, como vestuário (-2,5%) e transporte (+0,25%). A inflação subjacente — que exclui alimentos e energia — teve alta de 1,5%, a menor desde 2021. Esses resultados dão alguma margem de manobra ao Banco Central da Turquia (CBRT), que pode optar por manter os juros na próxima reunião, marcada para 17 de abril. A autoridade monetária havia sinalizado em março uma postura mais rígida, mas os dados recentes oferecem um breve alívio antes da divulgação do IPC de abril, prevista para 5 de maio.
Estados Unidos
Nos Estados Unidos, o chamado “Dia da Libertação Tarifária”, anunciado por Donald Trump, gerou forte turbulência nos mercados globais. O presidente declarou um aumento nas tarifas de importação para praticamente todos os países, elevando a taxa efetiva média para mais de 25% — o maior nível desde o início do século passado. Se todas as medidas entrarem em vigor a partir de 9 de abril, haverá um salto de quase 20 pontos percentuais sobre o nível atual. A China foi especialmente atingida, com uma tarifa adicional de 34%, somando-se aos 20% já vigentes. O anúncio veio acima das projeções mais pessimistas e provocou quedas acentuadas nos ativos de risco, como ações e commodities. O petróleo, por exemplo, caiu cerca de 12% no mercado internacional. Com cadeias produtivas globalizadas, o mercado teme agora impactos negativos sobre o crescimento mundial e o avanço da inflação.
Ainda que os riscos macroeconômicos tenham aumentado, os dados do mercado de trabalho americano surpreenderam positivamente em março. O relatório de emprego (Nonfarm Payroll) apontou a criação líquida de 228 mil vagas, acima das estimativas e superior às 117 mil registradas em fevereiro. A taxa de desemprego permaneceu estável em 4,2%, enquanto os salários médios por hora cresceram 0,3% no mês e 3,8% em relação ao ano anterior. Apesar disso, os indicadores de atividade mostram sinais de enfraquecimento. O PMI industrial caiu de 50,3 para 49,0 pontos, sinalizando contração no setor, enquanto o PMI de serviços recuou de 50,8 para 53,5 — seu menor nível desde junho de 2024. Dado o cenário de tarifas elevadas, deterioração da confiança e enfraquecimento de setores-chave, aumentam os temores de uma recessão no curto prazo, tanto nos EUA quanto globalmente.
Brasil
Nesta semana, o Congresso Nacional aprovou a chamada “Lei de Reciprocidade”, que autoriza o governo brasileiro a alterar tarifas comerciais em resposta à escalada da guerra tarifária global. Segundo autoridades, o governo ainda está avaliando os possíveis impactos das medidas anunciadas por Donald Trump e mantém todas as opções em aberto para garantir um comércio justo. No entanto, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o objetivo principal é manter o diálogo e buscar uma solução negociada. Como a tarifa imposta pelos EUA ao Brasil é relativamente baixa (10%) e o Brasil já pratica tarifas mais altas sobre produtos americanos, o governo não deve adotar retaliações significativas no curto prazo.
No mercado financeiro, a semana foi marcada por forte volatilidade no câmbio. Após atingir R$ 5,59 por dólar na quarta-feira, a cotação disparou para R$ 5,85 no fechamento da sexta, refletindo o aumento da incerteza global. Em meio a esse cenário, a balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 8,155 bilhões em março (cerca de R$ 48 bilhões), revertendo o déficit de US$ 324 milhões observado em fevereiro — o pior resultado desde janeiro de 2022. No mês passado, as exportações somaram US$ 29,178 bilhões, com alta de 5,5% na comparação anual, enquanto as importações cresceram 2,6%, alcançando US$ 21,023 bilhões. No acumulado do ano, o país apresenta superávit de US$ 9,982 bilhões, segundo dados divulgados pelo MDIC. Esse desempenho reforça a resiliência do setor externo brasileiro mesmo em um ambiente global mais turbulento.