Morning Call
Mercados reagem mal às tarifas de Trump

Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato*
[03/04/25]
… Os futuros das bolsas de NY ontem à noite deram o primeiro sinal de que os mercados não gostaram nem um pouco das tarifas anunciadas por Trump no Liberation Day. As techs eram as ações que mais perdiam no after hours, com os 34% para a China e os 32% para Taiwan. A Apple, que fabrica os iPhones na Ásia, teve um tombo de 6%. Em seguida, os pregões asiáticos refletiam o baque, assim como os negócios na Europa, taxada em 20%. O Brasil ficou entre os menos atingidos, com a tarifa mínima de 10% a todos os parceiros comerciais dos EUA, mas o agronegócio já pressiona o governo para tentar reverter. Hoje, a expectativa é para as reações dos países, em especial, da China e da União Europeia, que podem determinar a proporção da guerra comercial.
… Em entrevista à Fox News, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse que o governo observará a reação de Pequim, avisando que, “se quiserem retaliar, haverá uma escalada, pois Trump aumentará ainda mais as alíquotas”.
… Na primeira resposta, o Ministério do Comércio da China pediu a “revogação das medidas unilaterais”.
… As tarifas para a China e Taiwan foram consideradas “desconcertantes” pela Werbush, especializada em tecnologia, que alertou para a destruição da demanda e cadeias de suprimentos. “Foi pior do que o pior cenário que poderia vir do tarifaço.”
… Todas as fabricantes de chips têm exposição significativa às cadeias de suprimentos dos asiáticos, como a Nvidia (-4,3%).
… Ainda itens de pequeno valor importados da China e HK, com valor de até US$ 800 e que eram isentos, pagarão 30% do preço.
… A União Europeia deve se manifestar ainda hoje, assim como o Canadá que, embora não tenha sido incluído na lista das tarifas recíprocas, promete “contramedidas” às tarifas para o setor automotivo e o aço.
… Já ontem à noite, a Austrália disse que pedirá aos EUA que isentem o país do plano de Trump. Segundo o primeiro-ministro Anthony Albanese, “as tarifas não têm base lógica; uma tarifa recíproca seria zero e não 10%”.
… No after hours de NY, também as ações de fabricantes de agroquímicos caíram, como a Corteva (-5,5%), com receios de que o plano tarifário do presidente Trump possa causar mais turbulência do que ajudar o setor agrícola.
… O risco é de que as tarifas retaliatórias pressionem as cotações do milho, soja e outras commodities, prejudicando a capacidade dos agricultores americanos de investirem em sementes e pesticidas de alta tecnologia.
… Uma informação que causou alívio foi o esclarecimento da Casa Branca de que as tarifas recíprocas não serão cumulativas com as taxas recentes de 25% anunciadas para o aço, alumínio, carros e autopeças que já estão em vigor.
… Para o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, sem a cumulatividade das tarifas, o Brasil tem “total condições” de manter suas exportações para os EUA. O receio era de uma alíquota que chegasse a 35%.
… O que não está ainda esclarecido é se haverá alguma medida em relação ao etanol brasileiro, que não foi citado.
… Já a alíquota linear de 10%, apesar de mais baixa do que se cogitou, foi criticada pela Frente Parlamentar da Agropecuária. O deputado Pedro Lupion (PP) disse que os países têm realidades diferentes e que o Brasil tem déficit comercial com os EUA.
… Nota conjunta do Itamaraty e do MDIC acusou os Estados Unidos de violarem os compromissos que assumiu perante a OMC, e afirmou que avalia “todas as possibilidades de ação para assegurar a reciprocidade no comércio bilateral”.
… Pouco depois do anúncio das tarifas, a Câmara aprovou em votação simbólica a Lei da Reciprocidade, que dá base legal para o governo Lula contestar a imposição dessa alíquota. A matéria tinha passado na véspera no Senado.
… Em relatório, a consultoria britânica Capital Economics avaliou que “o golpe das tarifas recíprocas foi maior que o esperado”, com os cálculos apontando para uma tarifa média ponderada por importação de 19,1%.
… A Pantheon concorda que os anúncios de Trump foram muito maiores do que a maioria dos investidores previa e estima que o PCE, medida favorita do Fed para a inflação, pode sofrer um aumento acima de 1%, além da estagnação.
… A consultoria acredita que o Fed reduzirá o juro em 75pbs este ano e mais 75pbs em 2026 para compensar os danos tarifários. De madrugada, os juros dos Treasuries recuavam, enquanto o ouro batia máxima histórica e o petróleo caía (abaixo).
AFUNDOU – Foi muito negativa, a reação dos mercados nas horas seguintes ao anúncio do tarifaço. As variações falam por si.
… A primeira leitura foi a de que as tarifas podem colocar a economia americana em recessão, enquanto os preços sobem. Para alguns analistas, deve ficar mais comum falar de estagflação daqui para frente.
… Os futuros dos índices das bolsas em NY derreteram, com o Dow em queda de mais de 2%, o S&P 500 em baixa de 3% e o Nasdaq perdendo 3,5%. Os futuros de petróleo caíram em torno de 2,5%. A ordem foi sair do risco.
… A reação negativa provocou uma corrida para o ouro, visto como ativo seguro. A onça-troy quase bateu em US$ 3.200 na madrugada, na máxima de US$ 3.196, maior preço da história.
… Investidores também foram buscar refúgio dos Treasuries, ainda mais porque a expectativa de um baque na economia eleva as chances de cortes de juro pelo Fed. O retorno da note de 2 anos caiu a 3,75% e, o da note de 10 anos, a 4,05%.
… Por aqui, o mercado de juros ainda estava aberto na B3 quando Trump anunciou a tarifa de 10% sobre importações de produtos do Brasil e a reação foi de ligeira queda nos vencimentos curtos e médios.
… A interpretação inicial é de que, ao receber a alíquota mínima, o Brasil saiu com vantagem comparativa no tarifaço.
… Como a questão é mais complexa, com a economia dos EUA podendo sair chamuscada do episódio e, talvez até a brasileira, a depender do impacto interno e das retaliações, o Ibov futuro caiu (-0,69%) e o dólar para maio subiu (+0,14%).
… Em NY, o EWZ, principal fundo de índice (ETF) do Brasil, fechou em queda de 1,11% no after hours.
… Houve forte baixa também nos principais ADRs de empresas brasileiras. O da Vale recuou 3,37%, o do Itaú Unibanco perdeu 1,63%, o do Bradesco cedeu 1,35% e o da Petrobras caiu 0,97%.
… No Valor, Matias Spektor (FGV) ponderou que, com os EUA mais fechados à China, fabricantes do país e de outros asiáticos, os mais atingidos pelo tarifaço, vão inundar outros mercados e o Brasil deve ser um dos alvos.
… “A China tem uma capacidade muito importante de pressionar o Brasil”, disse. A reação dos mercados asiáticos na abertura de hoje foi bem ruim. Em Taiwan, uma das mais atingidas pelas tarifas, o feriado deixou os mercados financeiros fechados.
… No fechamento de ontem, o juro do DI para janeiro de 2026 cedeu a 14,980% (de 15,005%); o Jan/27, a 14,795% (de 14,855%); o Jan/29, a 14,575% (de 14,595%); o Jan/31, a 14,750% (de 14,720%); e o Jan/33, a 14,780% (de 14,740%).
… As taxas abriram em queda depois de a produção industrial de fevereiro no Brasil (-0,1%) vir abaixo do esperado (+0,2%), mais um dado a apontar desaceleração na economia. Depois, subiram com os Treasuries, para terminar em baixa após o tarifaço.
… Os dados acima do esperado da pesquisa ADP e das encomendas à indústria tinham dado uma animada no dia.
… O setor privado dos Estados Unidos criou 155 mil empregos em março, acima de 123 mil previstos, e as encomendas à indústria americana cresceram 0,6% em fevereiro ante janeiro, ante expectativa de +0,5%.
… No pregão regular do Ibovespa, o dia foi de muita volatilidade com o mercado à espera das tarifas, com o fechamento do índice estável (+0,03%), a 131.190,34 pontos. Em NY, houve muito sobe e desce, mas as bolsas fecharam no azul.
… O Dow Jones subiu 0,56%, a 42.225,32 pontos; o S&P 500 avançou 0,67% (5.670,97) e o Nasdaq ganhou 0,87% (17.601,05).
… Tesla, que chegou a cair mais de 6% no dia, fechou com alta de 5,4% com rumores de que Elon Musk deixará o governo Trump para se concentrar nas suas empresas. A Casa Branca disse que ele só sairá quando terminar o trabalho no DOGE.
… O dólar fechou em alta ante o real (+0,25%, a R$ 5,6967), mas abaixo da linha de R$ 5,70 – em um movimento de busca de proteção por investidores locais. Em alta contra emergentes, a moeda americana perdeu terreno para o euro e a libra.
… A moeda comum subiu 0,59%, a US$ 1,0853, e a divisa britânica avançou 0,54%, a US$ 1,2985. O iene ganhou 0,61%, a 148,717/US$. Na média contra seis pares, o dólar (DXY) caiu 0,43% e furou os 104 pontos, a 103,807.
… Em meio à cautela, as blue chips do Ibovespa recuaram, na contramão de suas respectivas commodities. Petrobras ON caiu 0,51% (R$ 40,82) e PN, -0,27% (R$ 37,20). Vale caiu 0,45% (R$ 56,93). Já os bancos sustentaram o sinal positivo.
… Santander teve elevação de 1,69%, a R$ 27,15. Bradesco PN avançou 0,24% (R$ 12,47), Banco do Brasil (+0,07%) e Itaú (+0,03%) fecharam estáveis. A exceção foi Bradesco ON, com baixa de 0,36%, a R$ 11,18.
… CSN (-5,71%) liderou as perdas, seguida de Brava Energia (-2,78%), CSM Mineração (-2,45%) e Metalúrgica Gerdau (-1,84%).
… O Grupo Pão de Açúcar disparou 15,84%, com expectativa por mudanças em seu conselho de administração. Magazine Luiza subiu 7,08% (R$ 11,19) e Vamos ganhou 7,00% (R$ 4,74) e também foram destaques.
AGENDA – Indicadores mais fracos no Brasil, nesta 5ªF, com o PMI Composto e de Serviços de março da S&P Global (10h), que em fevereiro registrou 51,2 pontos, e os emplacamentos de veículos da Fenabrave em março (11h).
… O presidente Lula e ministros participam no Palácio do Planalto do evento ‘O Brasil dando a Volta por Cima’, sobre entregas do governo nos dois primeiros anos de mandato (10h).
… No Estadão, a última pesquisa Genial/Quaest, que mostrou mais uma queda vertiginosa na aprovação de Lula, surpreendeu e preocupou o Planalto. Assessores começam a desconfiar que o problema não é só de comunicação.
… Às 11h, o Tesouro faz leilão de LTN para 1º/10/25, 1º/4/27, 1º/1/29 e 1º/1/32 e de NTN-F para 1º/1/31 e 1º/1/35.
… Lá fora, divulgam índices PMI Composto e de Serviços a Alemanha, Zona do Euro e Reino Unido. Ainda na Zona do Euro, sairá hoje (8h30) a ata da última reunião de política monetária.
… Nos EUA, os novos pedidos de auxílio-desemprego têm previsão de manter a média da semana anterior (+224 mil), com o total somando 1,866 milhão. Os dados serão divulgados às 9h30.
… Também às 9h30, sai a balança comercial americana de fevereiro, com previsão de déficit de US$ 121,4 bilhões.
… São importantes o PMI de serviços da S&P Global (10h45) e PMI de serviços do ISM (11h) – ambos de março.
… Dois Fed boys têm falas previstas: Philip Jefferson (13h30) e Lisa Cook (15h30) – os primeiros após o anúncio das tarifas.
EM TEMPO… Para o Santander, EMBRAER é a empresa brasileira mais exposta às tarifas dos EUA; TUPY e WEG são segunda e terceira brasileiras mais expostas, segundo o banco.
EMBRAER entregou 30 aeronaves no 1TRI, alta de 20% em relação ao mesmo trimestre de 2024.
CEMIG. Cemig Distribuição anunciou 13ª emissão de debêntures, no valor de R$ 1,5 bilhão.
CLEARSALE. AGE aprovou cancelamento de listagem na B3.
BTG PACTUAL. Em resposta à CVM, o banco informa que nunca fez proposta para aquisição de ativos ou participação no capital social do Banco Master. Divulgado ontem à noite.
AOS ASSINANTES DO BDM, BOM DIA E BONS NEGÓCIOS!
*com a colaboração da equipe do BDM Online
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